quarta-feira, maio 19, 2010

Cinema Português: Que Futuro?

Depois de “Call Girl” e chegada a estreia de “A Bela e o Paparazzo”, de António-Pedro Vasconcelos, as considerações sobre o estado do cinema nacional voltaram a dividir o realizador e outros membros da comunidade cinéfila portuguesa. Se o primeiro considera, redutoramente, que há que, de forma inquestionável, impor o “mainstream” do cinema em Portugal, como o afirmou numa entrevista recente, invocando os interesses gerais do “povo” e não de “meia dúzia de críticos, de jurados”, então o crítico de cinema para o jornal Público, Vasco Câmara, em jeito de resposta redigida em cima do joelho, na sua crónica do suplemento Ípsilon que hoje saiu, vê que a tentativa de imposição do referido “mainstream” não passa mais de um oportunismo para consolidar o que considera um “cinema do pátio”, “xunga”, “comprometido”, repleto de “falta de gosto”. Para o justificar, Câmara não só aponta o dedo para a ignorância de Vasconcelos (afinal o cinema do nosso país, consideremo-lo não comercial, deu bons exemplos de projecção internacional, como é o caso de Pedro Costa, realizador do espantoso “O Sangue”, que tem sido agraciado com grandes homenagens no exterior) como também para o seu medo inerente em não conseguir distinguir as linguagens do que os portugueses querem ver na televisão e do que querem ver no grande ecrã, aparentemente diferentes. Enfim, as acusações prosseguem-se (chega-se a falar de Clint Eastwood por diversas vezes), acabando por justificar, com uma pretensão inexpressável, a razão pela qual o filme “A Bela e o Paparazzo” se demarcou com uma bola preta (a pior das classificações), pelo crítico de cinema. Em suma, para o leitor menos esclarecido, quer a crónica como as declarações de Vasconcelos constituíram, de perfeita forma, a visão global do cinema português na actualidade e do seu futuro: divergente, confuso, incerto.

Eis, portanto, o que considero serem os problemas centrais no contemporâneo panorama, interligados intimamente: a ausência quase total de apoio governamental aos novos cineastas e a mentalidade dos portugueses. O primeiro, resta-se ao facto de que o Estado não investe grandemente na cultura cinematográfica, pois o apoio económico-financeiro arremetido reflecte um lucro imensamente reduzido, dado o facto de que quem aproveita, principalmente, desse mesmo auxílio são os realizadores ambiciosamente independentes, decididos a explorar o seu modus operandi e narrativas não tendo, claramente, em conta a receptividade do espectador comum. O que aqui, efectivamente, se interliga e é fruto de uma consequência viciosamente circular, é o facto desse mesmo cineasta crer, a priori, que o espectador comum não lhe dará a merecida atenção e o facto do espectador comum acreditar, por sua vez, que o cineasta não se esforça para trazer a qualidade que, supostamente, se requer para as salas de cinema. De facto, e isto é de conhecimento geral, ao falarmos de um filme português a conotação negativa que a palavra “português” tem é gritante. As reacções expectáveis, ignorantes e infundadas, tenderiam para um simples “o cinema português nada vale”. A pergunta pertinente que colocamos: por filmes como “O Crime do Padre Amaro” e “Second Life”, que reúnem um casting “de luxo” (leia-se: futebolistas, modelos, apresentadores de televisão e socialités diversos) e uma história onde os ingredientes “sexo”, “escândalo” e “acção” de certo não faltarão, ou por filmes como “Arena” (a curta de Salaviza que brilhou em Cannes, ano passado), “O Sangue”, de Costa, ou “Veneno Cura”, de Freire? O que parece consensual é, pois, que o cinema designado por comercial tem uma qualidade assumidamente digna de esgoto, formada pela lógica de telenovela, e o cinema institucionalizado por independente tem pouquíssima projecção e uma qualidade expectável para o baixo orçamento que o Governo disponibiliza. A sua sobrevivência depende dos festivais internacionais, e alguns deles chegam até a ser conhecidos. Lembremo-nos, por exemplo, do maravilhoso drama “Alice”, dirigido por Marco Martins, ou do provocatório “O Fantasma”, assinado por João Pedro Rodrigues.

A criação de mais e melhor cinema nacional só será possível, desconstruído o cenário, com uma maior valorização governamental do cinema português, que possibilitará, com a abertura das mentalidades, uma mais positiva receptividade da população ao mesmo (tão evidente em Espanha, França, Alemanha ou Itália). O cinema faz parte e reflecte a história e a cultura de um país, devendo, portanto, ser maximamente elevado. É sob este ideal que o governo o deverá promover, com orgulho e dedicação, pela via de exibição de filmes nacionais (os antigos não ficariam claramente esquecidos!), criação de espaços específicos públicos que direccionem o público exclusivamente ao cinema português, e, talvez o mais importante, sensibilizar os mais novos a partir dos primeiros anos, numa educação especificamente orientada para a valorização de outra arte nacional, que não apenas a literatura, etc. Desta forma, tendo em conta uma reacção em cadeia, estarão estabelecidos o contexto e a mentalidade propícios à realização e apresentação de novos e bons filmes em Portugal, que terão que acompanhar toda a evolução sugerida (para isso acontecer, torna-se indispensável o auxílio financeiro privado e público para a produção fílmica e para a sua divulgação, aspecto que, claramente, não é pormenor na recepção de uma fita). Só assim se verá, a dada altura, como é claramente secundária e redutora a divisão do “mainstream” e do independente (a infantil batalha de António-Pedro Vasconcelos, que se acha representante dos portugueses, com Vasco Câmara, que também se vê como o defensor unicamente entendido do bom cinema), como se entre as duas categorias não fosse passível de existir um meio-termo. A sétima arte, como o espelho da vida do ser humano e representação da multiplicidade e relatividade de preferências estéticas e não só, é inequivocamente multifacetada, e a imposição de uma dessas faces seria, apenas e só, altamente demagógico.

Perante isto, que futuro que se antevê para o cinema em Portugal? Que mais será preciso para evitar um futuro tão negro e incerto? Ficam, infeliz e inevitavelmente, as dúvidas.

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